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Por que os anjos têm asas?
Os anjos
não são seres que têm um corpo físico, como os pássaros, que realmente
precisam de asas para voar. Então, por que os imaginamos dessa maneira? E
como eles conseguem nos elevar nesses dias tão difíceis? Pedi ajuda a
um rabino amigo muito querido e ele me levou a uma aventura rabínica
clássica, conhecida como midrash, em que histórias bíblicas são
recontadas com alguns detalhes acrescentados pela imaginação do
narrador. No midrash do rabino Rami, os anjos não são retratados como
mordomos particulares que conseguem encontrar chaves de carro perdidas.
Em vez disso, eles oferecem uma estrada de coragem e amor, conhecida
como o “caminho angelical”. Por que os anjos têm asas? Porque “asas” nos
remetem ao voo, à fuga e à transcendência. Os anjos têm asas porque os
imaginamos atravessando a distância entre o céu e a Terra, uma distância
que também é imaginária. Enfim, os anjos têm asas porque você e eu
precisamos que eles as tenham. Então, os anjos são meras invenções de
nossa imaginação? Não existe nada de “mero” em relação à imaginação. A
imaginação é o modo como trabalhamos com mitos, metáforas, parábolas,
poesia e charadas – a base da espiritualidade e da religião. A
imaginação é o modo como fazemos arte, música e até amor. É nossa
maneira de transitar entre os níveis de consciência, partindo de uma
visão limitada – ligada a um eu isolado – até chegar à visão ampliada –
consciente da interdependência de todos os “eus” (em Deus, com Deus e
como Deus) – , a origem e a essência de toda a realidade. A imaginação é
o modo como nos transformamos e transformamos o mundo em que vivemos.
Isso significa que os anjos não são reais? Para responder a essa
pergunta, faço uma distinção entre “real” e “verdadeiro”. Uma coisa pode
ser verdadeira sem ser real. Quando Jesus ensinou a parábola do Bom
Samaritano, estava dizendo a verdade sem, necessariamente, se referir a
um samaritano real. Os que o ouviam entenderam, por isso ninguém
interrompeu a história para perguntar o nome do samaritano, para onde
ele se dirigia, nem se ele tinha emprego, mulher ou filhos. Todos sabiam
que a verdade da parábola não tinha nada a ver com a realidade dos
personagens.
O que há de verdadeiro nas parábolas de Jesus é verdadeiro em
grande parte da Bíblia. A Bíblia fala à imaginação na linguagem da
imaginação: parábolas, poesia, sonhos e mitos. Os anjos são mensageiros
místicos (angeloi, em grego, e malak, em hebraico) que habitam a
imaginação, nos tiram da alienação, nos integram e depois nos devolvem à
Terra para que possamos continuar esse trabalho de inclusão no mundo.
Os anjos da escada de Jacó
Para aprofundar essa questão, vamos analisar os dois célebres
encontros de Jacó com anjos no “Livro do Gênesis”. No primeiro – a
Escada de Jacó –, ele está fugindo do irmão, Esaú, que planeja matá-lo,
pois Jacó lhe roubara o legítimo lugar de líder da tribo. Jacó passa a
noite ao ar livre e sonha com “uma escada posta na Terra, cujo topo
chegava ao céu; e os anjos de Deus subiam e desciam por ela” (Gênesis
28:12). Se, por um lado, a tradução em português parece bastante clara, a
versão hebraica é muito mais instigante, pois sugere que a própria
cabeça de Jacó se transformou em escada e que os anjos subiam e desciam
em sua própria mente. Segundo o místico judeu do século 18, Jacob Joseph
de Polonnoye, as histórias da Torá são paradigmas – o que é verdadeiro
para Jacó também é verdadeiro para nós. Cada um de nós “é uma escada
posta na Terra, cujo topo alcança o céu e os anjos de Deus sobem e
descem por ela” (Toledot Ya’akov Yosef). A Bíblia nos diz que nossa
mente, por meio de nossa imaginação, consegue transcender os limites do
eu alienado e obter a sabedoria infinita da alma libertada. É por isso
que os anjos começam na Terra e sobem daqui para o céu, em vez de
começarem no céu e, de lá, descerem para a Terra. Ou, conforme o
entendimento do rabino Jacob Joseph, os anjos nascem em nossa própria
mente e, então, sobem ao céu, elevando a alma do eu. A essência da transformação
A subida, porém, é só a metade da jornada: os anjos “sobem e descem”.
O objetivo do caminho angelical – o caminho da imaginação espiritual –
não é transcender o eu, e sim transformá- lo; não é fugir da Terra para
habitar o céu, e sim subir ao céu para ser transformado e, então, voltar
à Terra para continuar essa transformação numa escala planetária. O céu
não é nosso destino final, mas um lugar de teshuvah, de mudança e
transformação.
Teshuvah, palavra hebraica normalmente traduzida como arrependimento,
significa mudança: mudar da alienação para a integração, mudar do eu
para a alma, mudar do mal para o bem (Salmo 34:14) e, de maneira mais
profunda, mudar do medo para o amor.
O amor é a essência da transformação angelical: o amor a Deus
(Deuteronômio 6:5), o amor ao próximo (Levítico 19:18) e o amor ao
estrangeiro (Levítico 19:34). E, por ser o amor a mensagem que os anjos
carregam, é sempre em direção à Terra que eles o fazem. A alma ama
naturalmente, mas o eu vive coberto de medo. A alma sabe que tudo o que
existe são aspectos de uma peculiaridade divina de infinitas faces, e
que cada face com que você se depara, na verdade, é uma expressão única
de Deus. O eu insiste no contrário, confundindo cada faceta de Deus com
um ser isolado Dele e de todo o resto, e concebendo um mundo regido pela
escassez e desunião, um mundo de “eus” conflitantes, eternamente
condenados a uma existência de medo e ansiedade. Não é a alma que
precisa ouvir a mensagem de amor, e sim o eu. Não é o céu que precisa
ser transformado pelo amor, e sim a Terra.
Como Jacó, tememos por nossa vida e nos refugiamos nas armadilhas
ilusórias de poder e prestígio. Como Jacó, nos tornamos ricos, mas não
sábios, e nunca deixamos de olhar sobre os ombros, com medo. E, como
Jacó, acabamos por nos ver sozinhos, sem lugar nenhum para nos esconder e
sem nada com o que negociar – o que nos leva ao segundo encontro
angelical de Jacó (Gênesis 32:25), a luta de uma noite toda com um anjo,
em que sua coxa é deslocada da junta e ele recebe um novo nome, Israel.
A luta de Jacó
No primeiro encontro, é Esaú que tenta tirar a vida de Jacó, mas,
no segundo, aparentemente, um anjo procura fazer o mesmo. O que
aconteceu foi que Jacó amadureceu: a verdadeira batalha não é entre você
e os outros, e sim entre você mesmo e sua alma, entre o medo e o amor. O
anjo não derrota Jacó, mas o transforma. O amor não derrota o medo, mas
o transforma em reverência. O sinal dessa mudança é, primeiro, a coxa
deslocada e, depois, o novo nome. A ferida muda o modo como caminhamos
pelo mundo. Ela diminui nosso ritmo para que nós, como Jacó, andemos
conforme o passo do gado e dos meninos que são amamentados (Gênesis
33:14). A ferida desloca a preocupação do eu e a coloca na direção do
outro, e da busca pelo poder na direção do cuidado com os indefesos –
que Jesus, mais tarde, chama de “estes pequeninos” (Mateus 25).
O novo nome muda a forma como nos vemos e o nosso lugar no mundo.
Não somos mais Jacó, “aquele que agarra o calcanhar”, e sim Israel,
“aquele que luta com Deus”. Não nos agarramos mais ao eu, nem ao
egoísmo, e sim lutamos com eles, pois podemos transformar o eu à luz da
alma, e praticar a justiça, a misericórdia e a humildade (Miqueias 6:8)
no mundo. A luta de uma noite toda de Jacó é sua subida; a ferida e o
novo nome que recebeu são sua transformação, mas su=a mudança não estará
completa até que Esaú apareça. Assim que o anjo se vai, Jacó/Israel
levanta o olhar e vê o irmão se aproximar com 400 guerreiros. Essa é a
descida. Jacó voltou ao mundo e enfrentará o irmão. Ele supõe que
morrerá. Dessa vez, transformado em Israel, não foge para se salvar, mas
para tentar proteger a vida daqueles que ama. E porque Jacó não é mais
Jacó, Esaú não é mais Esaú. Assim, os irmãos se abraçam, choram e se
reconciliam. O que mudou? Jacó não vê mais Esaú como o Outro, e sim como
um Rosto de Deus (Gênesis 33:10). Esse é o presente que os mensageiros
angelicais nos oferecem: a capacidade de a alma ver Deus em tudo e em
todos. O caminho angelical
Todos somos Jacó, agarrados e amedrontados. Como Jacó, colocamos a
culpa por nosso medo no Outro: na esquerda, na direita, nos liberais,
conservadores, nas feministas, nos socialistas, capitalistas,
comunistas, muçulmanos, negros, judeus, árabes, infiéis, céticos e nos
fiéis de crenças diferentes. Não existe fim para os Outros a quem
culpar, porque a verdadeira causa de nosso medo não tem nada a ver com o
outro e tudo a ver conosco. Não existe nenhum “Outro” a ser derrotado,
apenas nós mesmos a ser transformados. Este é o caminho angelical: o
caminho do acolhimento do Outro e da descoberta de Deus. Não é um
caminho fácil e exige que tenhamos feridas terríveis. Não é um caminho
egoísta e exige de nós o enfrentamento de nossos medos. Não é um caminho
seguro, mas que coloca em risco tudo o que temos e somos. E não é um
caminho de luz, pois exige que nos mantenhamos firmes nas trevas. De
fato, ele é um caminho de coragem e amor, que revela o eu e o outro como
o Rosto de Deus.
O caminho angelical é árduo demais para muitos de nós, talvez para a
maioria. Assim, passamos a conter a imaginação, a comprometer nossa
capacidade de transformação e a nos distrair com fantasias de
transcendência e fuga. Imaginamos os anjos como mordomos particulares,
que encontram as chaves perdidas do carro e as guardam para nós num
lugar próximo no estacionamento do shopping.
Tentamos evitar o trabalho árduo de nos transformar e de
transformar o mundo, e sonhamos em escapar de ambos. Imaginamos que
somos seres espirituais tendo uma experiência material, que nosso
verdadeiro lar é em outro lugar, que viemos à Terra para aprender algo e
que, uma vez que tenhamos aprendido esse algo, deixaremos para trás o
mundo temporal e temporário da matéria e retornaremos ao nosso lar
eterno, no mundo imaterial do espírito. Ignoramos a parábola da Escada
de Jacó e esquecemos que os anjos sobem apenas para descer. Insistimos
em que os anjos sejam outra coisa que não a nossa capacidade de
transformação e imaginamos que estamos aqui para fugir do mundo, não
para aceitá-lo com coragem e, assim, transformá-lo com amor, e o fazemos
a nosso próprio risco.
O caminho angelical sugere uma imagem bem diferente. Não viemos ao
mundo chegando de fora dele: nós nascemos no mundo, somos de dentro
dele. Não estamos aqui para aprender e partir, estamos aqui para
despertar e ensinar. Não se trata de transcendência, e sim de
transformação. Os anjos não protegem o eu, eles tentam destruí-lo. Eles
não nos ajudam a fugir do outro, mas a nos preparar para acolher o Outro
e para ver o Outro como ele verdadeiramente é: outro rosto de um Deus
de infinitas facetas. Os anjos não nos mostram o caminho para fugir,
eles nos mostram que não há outro caminho que não seja o do amor.
* O rabino Rami Shapiro é autor de 14 livros. Seu trabalho mais
recente é The Angelic Way: Angels through the Ages and Their Meaning for
Us (sem tradução em português).
Clique na figura ao lado e acesse o site .
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